A relação entre saúde cerebral e os pets

A relação entre saúde cerebral e os pets

Ivar Brandi, médico neurologista pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, mestre em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, Pós graduado em Neurociências e Comportamento - PUC/RS
e em Pesquisa Clínica - Harvard Medical School. Atua em neurologia da cognição e comportamento e neuropsiquiatria. Palestrante em escolas e empresas.

O humano de Tarsila, a schnauzer mais linda.

Solidão, Pets e a Saúde Cerebral 

Cuidar de um animal de estimação é muito mais do que apenas ter uma companhia agradável. Com frequência cada vez maior, pesquisas científicas comprovam os benefícios dos “serumaninhos” para a nossa saúde. A presença de um pet pode significar menos solidão e até mesmo prevenção contra declínio cognitivo, especialmente para adultos que vivem sozinhos.  Cuidar de um animal é caminhar por uma via de mão dupla: nós cuidamos deles e eles preservam nossa saúde.

 

Solidão crônica e o isolamento social estão associados a maior risco de declínio de funções cognitivas como memória, atenção e funções executivas, aumentando o risco de demência a longo prazo. Viver sozinho, por si só, não é necessariamente um problema, mas aumenta a possibilidade de redução de interações com outras pessoas, menos estímulos sociais e menor suporte emocional, fatores que prejudicam a saúde cerebral com o passar do tempo. É como se o cérebro, privado de encontros, conversas, responsabilidades e trocas afetivas, fosse aos poucos reduzindo o número e a eficiência de suas conexões.

 

Solidão ou Isolamento social - A diferença

Antes de falarmos sobre os benefícios dos animais, precisamos diferenciar solidão de isolamento social. Isolamento social é uma medida objetiva: redução na frequência de contato social real (contatos virtuais não são considerados) em determinado período de tempo. Durante a pandemia de Covid-19, todos nós passamos por isolamento social, mas nem todos vivenciaram a solidão. Solidão é a percepção subjetiva de estar só. A sensação profunda de não pertencimento, não ser visto e não ser necessário.

 

Companhia para além da vida

Uma revisão sistemática de literatura científica analisou 24 estudos sobre cuidar de animais de estimação, solidão e isolamento social em adultos e jovens. Entre adultos, especialmente idosos, vários estudos encontraram associação entre ter um pet e níveis menores de isolamento social. Entre pessoas que viveram perdas afetivas relevantes, os estudos demonstraram que o pet pode atenuar a percepção de solidão e os impactos do luto, especialmente naquelas que vivem só.

 

O impacto na saúde do cérebro

Outro estudo publicado em 2023 acompanhou 7.945 adultos a partir de 50 anos por cerca de 8 anos, avaliando a memória verbal (capacidade de aprender e lembrar palavras) e a fluência verbal (capacidade de falar rapidamente nomes de animais, por exemplo). Os autores compararam pessoas que tinham pet em casa com aquelas que não tinham, levando em conta idade, escolaridade, saúde física, sintomas depressivos, nível de atividade física, entre outros fatores importantes para a saúde cognitiva. Os resultados demonstraram que entre as pessoas que viviam sozinhas, aquelas que tinham um pet tiveram um declínio bem mais lento em memória e fluência verbal do que aquelas sem pet. Em síntese, em adultos que moram só, cuidar de um pequeno animal pode proteger a saúde cognitiva dos efeitos do isolamento e do envelhecimento.

Todos nós conhecemos pessoas que, por causa do cão, passaram a caminhar diariamente, a conhecer vizinhos, conversar com outros tutores na praça ou na rua. O que começou como um passeio obrigatório transformou-se em uma rede discreta de encontros, sorrisos, trocas de afeto e informações. Mesmo quem é mais reservado e não se sente à vontade em grandes grupos passa a ter pequenos diálogos, cumprimentos, interações. Cada uma dessas micro interações é um estímulo social e cognitivo que alimenta e desafia o cérebro, reduz o isolamento e expande a sensação de pertencimento.

Como neurologista dedicado ao estudo da cognição e comportamento humano, vejo diariamente o impacto da solidão sobre a saúde cerebral, mas vejo também, o potencial transformador de vínculos verdadeiros, incluindo o vínculo com os animais. Os pets não substituem família, amigos e comunidade; não são a “pílula mágica” para prevenir o envelhecimento cerebral. Mas podem ser bons aliados, oferecendo afeto constante, estimulando o movimento, provocando interação social e aliviando a solidão. A proteção da saúde cerebral com certeza não está em medicamentos e suplementos, pode estar em pequeno ser de quatro patas. 

Este texto é inspirado nos seguintes estudos:

Pet Ownership, Living Alone, and Cognitive Decline Among Adults 50 Years and Older. JAMA Network Open 2023 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38147332/

Pet ownership, loneliness, and social isolation: a systematic review. Social Psyc and Psyc Epidemiological, 2022 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35816194/

4 Comentários

Ana Paula

Eu amo minha princesa, é meu porto seguro, minha parceira, minha vida!

Carol C

Como seria diferente se eles são os seres mais especiais desse mundo? <3

Guilherme

Todos os dias eles nos dão tudo de si para nós, não podia ser diferente!

Henrique T.

Sempre soube que eles faziam bem para a nossa saúde! Obrigado por compartilhar

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